A anamnese que a maioria faz coleta dados. A que muda a avaliação faz outras perguntas.
Depois de quinze anos avaliando, eu fui juntando um bloco de perguntas que quase ninguém faz e que mudam o rumo de uma avaliação inteira. São 25, organizadas em sete blocos, cada uma com uma linha explicando por que ela importa. Você imprime e usa no atendimento de amanhã.
Para quem é: psicopedagogas e neuropsicopedagogas que já usam uma ficha de anamnese, sentem que ela coleta informação mas não ilumina o caso, e querem sair da entrevista inicial com direção em vez de uma lista preenchida.
01
25 perguntas em sete blocosDa queixa por trás da queixa até o que a própria criança pensa sobre ela mesma.
02
O porquê de cada perguntaUma linha explicando o que aquela resposta revela e o que ela muda na sua condução.
03
Versão limpa para preencherUm clique troca a leitura comentada por uma ficha com espaço para escrever, pronta para imprimir.
04
As três perguntas de segurançaAs que não podem faltar antes de você levantar qualquer hipótese.
Aqui estão as perguntas e o motivo de cada uma existir. O que fica de fora é a leitura das respostas, que é a parte difícil: o que fazer quando o relato dos pais se contradiz, como transformar o que apareceu na anamnese em hipótese, e qual instrumento escolher a partir disso. Isso eu discuto caso a caso na mentoria, porque não cabe em PDF.
VÂNIA LAMB
MENTORIA
Etapa 2 da avaliação psicopedagógica
Anamnese Ampliada
A ficha padrão pergunta o que aconteceu. Estas perguntas procuram outra coisa: como a família enxerga o que aconteceu, o que ela já tentou, e o que ninguém contou porque ninguém perguntou. Elas não substituem a sua ficha, elas entram nela.
Vânia Lamb, psicopedagoga e neuropsicopedagoga
As 25 perguntas, bloco a bloco
A ordem funciona como conversa: começa pelo que a família quer resolver e só depois vai para trás no tempo. Perguntar a história antes do desejo costuma soar interrogatório.
Identificação
Nome da criança
Data de nascimento
Idade
Escola e série
Responsáveis presentes
Data da entrevista
1
A queixa por trás da queixa
Se essa dificuldade sumisse amanhã, o que mudaria na sua casa?Por que essa muda a avaliaçãoA resposta quase nunca é sobre nota. É sobre briga na hora da lição, sobre culpa, sobre medo do futuro. Você descobre o que a família realmente veio resolver, e é isso que vai sustentar a adesão ao plano.
Quem, na família, está mais incomodado com isso?Por que essa muda a avaliaçãoMostra de quem é a demanda. Quando quem procurou não é quem está incomodado, o tratamento costuma ser abandonado no segundo mês.
O que vocês já tentaram, e o que aconteceu depois?Por que essa muda a avaliaçãoEvita que você proponha exatamente a estratégia que já fracassou, e mede quanto de esperança ainda sobrou nessa família.
Quando foi a última vez que ele te surpreendeu de um jeito bom?Por que essa muda a avaliaçãoTira a família do relato de déficit por alguns minutos e te entrega, de graça, o recurso preservado que vai ancorar toda a devolutiva depois.
2
A linha do tempo que ninguém pergunta
Em que momento vocês perceberam que alguma coisa era diferente, mesmo sem saber nomear?Por que essa muda a avaliaçãoA queixa quase sempre chega pela escola, mas o início real costuma ser bem anterior. Essa pergunta encontra a data verdadeira.
Ele já perdeu alguma habilidade que já tinha?Por que essa muda a avaliaçãoPergunta de segurança. Perda de marco adquirido muda o encaminhamento na mesma hora e não pode depender de a família lembrar sozinha de contar.
Como foram o sono, a alimentação e o desmame nos dois primeiros anos?Por que essa muda a avaliaçãoÉ onde aparecem os primeiros sinais de regulação sensorial e de vínculo, muito antes de qualquer conteúdo escolar existir.
Como foi a gestação, o parto e os primeiros dias de vida?Por que essa muda a avaliaçãoPrematuridade, intercorrências e tempo em UTI neonatal são fatores de risco que mudam a leitura de tudo o que vier depois.
3
A escola contada por dois lados
O que a escola disse, com as palavras dela, e o que vocês entenderam?Por que essa muda a avaliaçãoSepara o relato do professor da interpretação da família. A distância entre os dois já é um dado sobre a comunicação escola e casa.
Ele se comporta do mesmo jeito em casa e na escola?Por que essa muda a avaliaçãoDiferença de comportamento entre contextos não é detalhe, é informação diagnóstica. Dificuldade que só aparece em um lugar aponta para o ambiente.
Em quais matérias, ou em que momentos do dia, ele vai bem?Por que essa muda a avaliaçãoMapeia o que está preservado e te dá a âncora concreta para o plano. Ninguém constrói intervenção só a partir do que falta.
Já houve troca de escola, de turma ou de professora? O que mudou depois?Por que essa muda a avaliaçãoÉ o teste natural mais barato que existe: se a dificuldade mudou junto com o ambiente, ela não está só na criança.
4
O dia comum
Me conta um dia inteiro dele, do acordar ao dormir.Por que essa muda a avaliaçãoUma pergunta só que entrega rotina, sono, tela, autonomia e sobrecarga de agenda. Deixe a família falar sem interromper e anote o que aparecer sozinho.
Quanto tempo ele leva para fazer a lição, e quanto tempo você fica junto?Por que essa muda a avaliaçãoDistingue dificuldade de aprender de dificuldade de se organizar sozinho, que pedem planos completamente diferentes.
Como é o sono? Quanto tempo demora para dormir e quantas vezes acorda?Por que essa muda a avaliaçãoSono ruim produz desatenção, irritabilidade e queda de desempenho. Investigar isso antes evita hipótese apressada.
Quanto tempo de tela por dia, e o que acontece quando você desliga?Por que essa muda a avaliaçãoO tempo importa menos do que a reação ao desligar, que é uma leitura direta de tolerância à frustração.
5
O corpo e os sentidos
Quando foi a última avaliação de vista e de audição?Por que essa muda a avaliaçãoNenhuma hipótese de aprendizagem se sustenta com visão ou audição não checadas. Essa pergunta não é burocracia, é pré-requisito.
Tem alguma textura, som, roupa, cheiro ou comida que ele não suporta?Por que essa muda a avaliaçãoSinal sensorial praticamente nunca aparece espontaneamente no relato, porque a família já se organizou em volta dele e parou de notar.
Ele reclama de dor de cabeça, esfrega os olhos ou aproxima muito o rosto do papel?Por que essa muda a avaliaçãoSão queixas que a família atribui a manha ou preguiça e que costumam ter explicação clínica simples.
6
A família como sistema
Tem alguém na família que também teve dificuldade na escola?Por que essa muda a avaliaçãoAlém do dado de hereditariedade, é comum um dos responsáveis se reconhecer aqui, e isso muda completamente o tom da devolutiva.
Aconteceu alguma mudança grande no último ano?Por que essa muda a avaliaçãoMudança de cidade, separação, luto, nascimento de irmão ou perda de emprego explicam muita queixa recente.
Quem cuida dele no dia a dia, e essas pessoas concordam sobre o que fazer?Por que essa muda a avaliaçãoPrevê a adesão. Plano combinado com quem não executa a rotina não sai do papel.
7
A criança sobre ela mesma
O que você acha que os adultos falam de você quando você não está por perto?Por que essa muda a avaliaçãoEntrega a autoimagem que a criança já construiu, e é quase sempre mais dura do que os adultos imaginam.
O que é fácil para você e ninguém percebe?Por que essa muda a avaliaçãoFaz aparecer uma habilidade real que não está em teste nenhum e que a criança tem orgulho de contar.
Se você pudesse mudar uma coisa na escola, o que seria?Por que essa muda a avaliaçãoCostuma revelar se o problema, do ponto de vista dela, é aprender ou é conviver.
Se alguma dessas respostas te deixou sem saber o que fazer depois, é exatamente aí que a mentoria entra.
Eu não leio as perguntas em voz alta na ordem, porque anamnese lida como formulário fecha a família. Eu abro com a primeira pergunta do bloco 1 e deixo a pessoa falar, e vou marcando o que ela já respondeu sozinha, que costuma ser bastante coisa. As perguntas que sobrarem eu faço no fim, e aí elas soam como interesse e não como checklist.
Três delas são inegociáveis e eu faço sempre, mesmo com pouco tempo: a da perda de habilidade adquirida, a da última avaliação de vista e audição, e a de comportamento diferente entre casa e escola. Nenhuma hipótese minha sai antes dessas três estarem respondidas.
Onde esta ficha termina
Ela te dá as perguntas certas. O que ela não faz, e eu prefiro dizer com todas as letras, é te ensinar a ler as respostas.
O que fazer quando o relato dos pais se contradiz, ou quando um responsável desmente o outro na sua frente.
Como transformar a anamnese em hipótese, que é o salto que trava quase toda profissional em início de carreira.
Qual instrumento escolher a partir do que apareceu na entrevista, por faixa etária e por perfil.
Como conduzir a anamnese com família em conflito, com responsável ausente ou com adolescente que não quer estar ali.
E o seu caso específico, aquele que está te tirando o sono agora e que nenhuma ficha genérica vai resolver.
Se você quiser ir além da ficha
Perguntar é a parte que se aprende sozinha. Interpretar, não.
Na mentoria eu acompanho psicopedagogas e neuropsicopedagogas de perto, olhando para os casos reais que estão na sua agenda, com escuta individualizada e sem julgamento. É onde a gente trabalha a anamnese que não fechou, a hipótese que você não sabe se sustenta e o relatório que precisa sair essa semana.